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Regência verbal e nominal: qual preposição usar

11 min de leitura · 9 tópicos · atualizado em 06/11/2026

Fazer o quiz de regência (20 questões)

Regência é a parte da gramática que estuda a relação de dependência entre as palavras. Uma delas, o termo regente, exige outra, o termo regido, e muitas vezes pede uma preposição para ligá-las. Quando o regente é um verbo, fala-se em regência verbal. Quando é um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio), fala-se em regência nominal.

Dominar a regência evita frases como “assisti o filme” ou “prefiro cinema do que teatro” em textos formais. Este guia reúne os casos que as gramáticas tradicionais registram de forma consensual, com exemplos do dia a dia, e mostra também como a preposição aparece antes dos pronomes relativos.

O que é regência: termo regente e termo regido

Em “Moramos em Recife”, o verbo moramos é o termo regente e Recife é o termo regido. A preposição em faz a ligação entre os dois. Em “Ela tem respeito pelos professores”, o regente é o substantivo respeito e o regido é professores.

A regência não depende do gosto de quem fala. Cada verbo ou nome tem um modo de se ligar ao complemento, fixado pelo uso culto e registrado nas gramáticas. Por isso, um mesmo verbo pode mudar de regência quando muda de sentido, como acontece com assistir.

Regras principais

  • Termo regente é a palavra que exige complemento; termo regido é o complemento exigido.
  • A ligação pode pedir preposição (gostar de) ou dispensá-la (ler um livro).
  • A regência verbal trata dos verbos; a nominal trata de substantivos, adjetivos e advérbios.
  • Quando o sentido do verbo muda, a regência também pode mudar.

Exemplos

  • Correto Nós moramos em Recife.

  • Correto Ela tem respeito pelos professores.

  • Correto Leio um livro por semana.

  • Correto Sou fiel aos meus amigos.

Transitividade: direto, indireto, direto e indireto, intransitivo

A transitividade mostra se o verbo precisa de complemento e de que tipo. O verbo transitivo direto pede complemento sem preposição obrigatória (ler um poema). O transitivo indireto pede complemento com preposição (gostar de música). O transitivo direto e indireto pede os dois (entregar o livro ao colega). O intransitivo tem sentido completo sozinho (A chuva cessou).

A transitividade vale para o sentido em que o verbo está sendo usado. Por isso, diante de uma dúvida, a primeira pergunta é: o que o verbo quer dizer nesta frase? Quem responde a isso escolhe a preposição certa.

Regras principais

  • Transitivo direto: complemento sem preposição (objeto direto).
  • Transitivo indireto: complemento com preposição (objeto indireto).
  • Transitivo direto e indireto: um complemento sem preposição e outro com preposição.
  • Intransitivo: o verbo não precisa de complemento; pode vir com adjunto de lugar ou de tempo.

Exemplos

  • Correto Os alunos leram o poema.

  • Correto Gostamos de música clássica.

  • Correto O guia mostrou o mapa aos turistas.

  • Correto O sol nasceu.

Assistir: ver, ajudar, caber e morar

O verbo assistir muda de regência conforme o sentido. No sentido de ver, presenciar, é transitivo indireto e pede a preposição a: assistir ao jogo. Na norma-padrão, não se usa “assistir o jogo” com esse sentido. No sentido de ajudar, prestar assistência, é transitivo direto: A enfermeira assistiu o paciente.

Há ainda dois usos menos frequentes. Com o sentido de caber, ser um direito de alguém, é indireto: Assiste ao cidadão o direito de votar. Com o sentido de morar, é intransitivo e vem com a preposição em: Ele assiste em Lisboa.

Regras principais

  • Ver, presenciar: assistir a (objeto indireto).
  • Ajudar, dar assistência: assistir (objeto direto, sem preposição).
  • Caber, ser um direito: assistir a.
  • Morar: assistir em.

Exemplos

  • Correto Assistimos ao jogo no estádio da cidade.

    Incorreto Assistimos o jogo no estádio da cidade.

  • Correto Os alunos assistiram à palestra sobre astronomia.

    Incorreto Os alunos assistiram a palestra sobre astronomia.

  • Correto A enfermeira assistiu o paciente durante a noite.

  • Correto Assiste ao cidadão o direito de votar.

Aspirar, visar e implicar

Aspirar tem dois sentidos. Como respirar, inalar, é transitivo direto: Aspiramos o ar puro da montanha. Como desejar, almejar, é transitivo indireto e pede a: Aspiro a uma vaga na equipe de natação.

Visar é transitivo direto quando significa mirar ou pôr visto: O arqueiro visou o alvo; O diretor visou o certificado. Quando significa ter como objetivo, pede a: O estudo visa ao conhecimento das espécies. Já implicar, no sentido de acarretar, trazer como consequência, é transitivo direto: A seca implica escassez de água.

Regras principais

  • Aspirar no sentido de respirar: sem preposição.
  • Aspirar no sentido de almejar: com a.
  • Visar no sentido de mirar ou pôr visto: sem preposição; no sentido de ter por objetivo: com a.
  • Implicar no sentido de acarretar: sem preposição, portanto não se escreve “implica em”.

Exemplos

  • Correto A atleta aspira a uma medalha nos Jogos.

    Incorreto A atleta aspira uma medalha nos Jogos.

  • Correto Ao subir a serra, aspiramos o ar fresco.

  • Correto O estudo visa ao conhecimento das espécies.

  • Correto A falta de chuva implica escassez de água.

    Incorreto A falta de chuva implica em escassez de água.

Obedecer, desobedecer, preferir e agradar

Obedecer e desobedecer são transitivos indiretos e pedem a, tanto para pessoas quanto para regras: Os motoristas obedecem à sinalização. Preferir liga o que se escolhe ao que se deixa de lado com a preposição a: Prefiro o mar à montanha.

Como o próprio verbo preferir já traz a ideia de comparação, a norma-padrão rejeita mais antes dele e do que depois dele. Agradar, no sentido de satisfazer, ser agradável a alguém, é transitivo indireto: O espetáculo agradou ao público. Desagradar segue a mesma regência.

Regras principais

  • Obedecer e desobedecer: sempre com a.
  • Preferir uma coisa a outra; evite “preferir ... do que” e “mais ... do que” com esse verbo.
  • Agradar no sentido de satisfazer: com a.
  • Diante de substantivo feminino com artigo, a preposição se une a ele: obedecer à regra.

Exemplos

  • Correto As crianças obedecem aos pais.

    Incorreto As crianças obedecem os pais.

  • Correto Prefiro caminhar a correr.

    Incorreto Prefiro caminhar do que correr.

  • Correto Ele preferiu o campo à cidade.

  • Correto Quem desobedece às regras do jogo é advertido.

  • Correto A música agradou ao público.

Informar, esquecer e lembrar

Informar é transitivo direto e indireto e admite duas construções. Na primeira, a pessoa é o objeto direto e o assunto vem com de ou sobre: Informei os alunos do horário. Na segunda, o assunto é o objeto direto e a pessoa vem com a: Informei o horário aos alunos.

Esquecer e lembrar também têm duas construções. Sem pronome, são transitivos diretos: Esqueci o nome dela; Lembrei o endereço. Com pronome (esquecer-se, lembrar-se), são transitivos indiretos e pedem de: Esqueci-me do nome dela; Lembrei-me do endereço. Na norma-padrão, não se misturam as duas formas.

Regras principais

  • Informar alguém de ou sobre algo, ou informar algo a alguém.
  • Esquecer e lembrar sem pronome: objeto direto, sem preposição.
  • Esquecer-se e lembrar-se: objeto indireto com de.
  • Ou se usa o verbo sem pronome e sem preposição, ou com pronome e com de.

Exemplos

  • Correto A guia informou os turistas sobre o roteiro.

  • Correto A guia informou o roteiro aos turistas.

  • Correto Esqueci o guarda-chuva na biblioteca.

    Incorreto Esqueci do guarda-chuva na biblioteca.

  • Correto Esqueci-me do guarda-chuva na biblioteca.

  • Correto Lembrei-me da viagem de infância.

Chegar, ir, morar, proceder, simpatizar e namorar

Chegar indica destino e pede a: Chegamos a Lisboa. Ir também pede a (Fomos ao museu) e admite para quando há ideia de permanência (Ele foi para São Paulo, onde vai morar). Morar e residir indicam o lugar onde alguém vive e pedem em: Moro em Belém; Ela reside na capital.

Proceder tem dois usos. Com a, significa iniciar, dar andamento: Procedeu-se à votação. Com de, significa originar-se, vir de: O rio procede de uma nascente na serra. Simpatizar pede com: Simpatizo com os vizinhos. Namorar é transitivo direto: Júlia namora Pedro há dois anos.

Regras principais

  • Chegar pede a. Ir pede a, ou para quando há ideia de permanência.
  • Morar e residir: o lugar vem com em.
  • Proceder a significa iniciar; proceder de significa originar-se.
  • Simpatizar pede com; namorar não leva preposição.

Exemplos

  • Correto Os viajantes chegaram a Salvador de madrugada.

  • Correto Minha avó mora em Ouro Preto.

  • Correto A comissão procedeu à leitura do relatório.

  • Correto Simpatizo com a ideia do passeio.

  • Correto Camila namora Rafael desde a época da escola.

    Incorreto Camila namora com Rafael desde a época da escola.

Regência nominal: substantivos e adjetivos

Na regência nominal, substantivos, adjetivos e advérbios também pedem preposição. O caminho mais seguro é decorar o par formado pela palavra e sua preposição: acessível a, fiel a, necessidade de, respeito a ou por, obediência a, prejudicial a, devoção a ou por.

O adjetivo apto aceita a ou para: apto a aprender; apto para o esporte. Os substantivos derivados de verbos costumam manter a preposição do verbo: de obedecer a vem obediência a.

Regras principais

  • Acessível a, fiel a, obediência a e prejudicial a levam a preposição a.
  • Necessidade pede de.
  • Respeito e devoção aceitam a ou por.
  • Apto aceita a ou para.

Exemplos

  • Correto O museu é acessível a visitantes de todas as idades.

  • Correto Os cães são fiéis aos donos.

  • Correto A população tem necessidade de áreas verdes.

  • Correto O excesso de ruído é prejudicial à saúde.

  • Correto O jovem mostrou respeito pelos mais velhos.

Pronomes relativos com preposição

Quando o pronome relativo (que, quem, o qual, cujo, onde) substitui um termo que exigia preposição, essa preposição vem antes do relativo. Em “Assisti ao filme”, o complemento tem a; por isso, “O filme a que assisti era longo”. Para achar a preposição, separe a frase em duas e veja o que o verbo ou o nome pede.

Cujo indica posse, concorda com o termo possuído e não é seguido de artigo: O autor cujo livro li. Pode vir depois de preposição: O autor de cujo livro gostei. Para lugar, em que e onde costumam equivaler: A cidade em que moro; A cidade onde moro.

Regras principais

  • A preposição exigida pelo verbo ou pelo nome vem antes do pronome relativo.
  • Com pessoas, quem aparece sempre depois de preposição: a pessoa de quem gosto.
  • Cujo concorda com o termo possuído e não admite artigo logo depois.
  • Para descobrir a preposição, transforme o relativo na frase simples que lhe deu origem.

Exemplos

  • Correto O filme a que assisti estreou no mês passado.

    Incorreto O filme que assisti estreou no mês passado.

  • Correto A cidade em que moro fica no litoral.

  • Correto O autor cujo livro li ganhou um prêmio.

    Incorreto O autor cujo o livro li ganhou um prêmio.

  • Correto A professora de quem gosto ensina geografia.

  • Correto As regras a que os jogadores obedecem são claras.

Erros frequentes

  • Incorreto Assisti o filme ontem à noite.

    Correto Assisti ao filme ontem à noite.

    No sentido de ver, assistir é transitivo indireto e pede a.

  • Incorreto Prefiro cinema do que teatro.

    Correto Prefiro cinema a teatro.

    Preferir liga os termos com a; a comparação já está dentro do verbo.

  • Incorreto A seca implica em perdas na lavoura.

    Correto A seca implica perdas na lavoura.

    No sentido de acarretar, implicar é transitivo direto e dispensa a preposição.

  • Incorreto Os alunos obedecem o regulamento.

    Correto Os alunos obedecem ao regulamento.

    Obedecer e desobedecer são transitivos indiretos e pedem a.

  • Incorreto O filme que assisti era ótimo.

    Correto O filme a que assisti era ótimo.

    A preposição pedida pelo verbo deve vir antes do pronome relativo.

  • Incorreto O autor cujo o livro li é jovem.

    Correto O autor cujo livro li é jovem.

    O pronome cujo já indica posse e não aceita artigo depois dele.

Dicas para não errar

  • Pergunte primeiro qual é o sentido do verbo na frase. Assistir, aspirar e visar mudam de regência conforme o sentido.
  • Memorize pares curtos: obedecer a, preferir a, simpatizar com, morar em, chegar a.
  • Para achar a preposição antes do relativo, desmonte a frase: “Assisti ao filme” e “O filme era longo” viram “O filme a que assisti era longo”.
  • Lembre que preferir já contém a ideia de “mais”, por isso não combina com “mais” nem com “do que”.

Para lembrar

  • Regente pede, regido completa; a preposição faz a ponte.
  • Assistir a é ver; assistir sem preposição é ajudar.
  • Aspirar a e visar a indicam objetivo; aspirar o ar é respirar.
  • Prefere-se uma coisa a outra, nunca “do que”.
  • A preposição do verbo vem antes do relativo: o filme a que assisti.

Perguntas frequentes

Por que “assistir o filme” é considerado erro?

As gramáticas tradicionais classificam assistir, no sentido de ver, como transitivo indireto. Por isso, a forma indicada para textos formais é assistir ao filme. No sentido de ajudar, o verbo é direto e dispensa a preposição.

Posso usar “preferir ... do que”?

Na norma-padrão, não. A regência tradicional é preferir uma coisa a outra: prefiro leitura a televisão. A mesma lógica vale para evitar “mais” junto de preferir.

Implicar sempre dispensa a preposição?

No sentido de acarretar, trazer como consequência, sim: a seca implica escassez. O verbo tem outros sentidos, que não fazem parte deste guia.

Fontes deste guia

  • Bechara, Moderna Gramática Portuguesa. Conceitos de regência verbal e nominal e transitividade.
  • Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. Regência de verbos como assistir, aspirar, visar, preferir e esquecer, e lista de regências nominais.
  • Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Emprego de preposições e de pronomes relativos, incluindo cujo.

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